Muitas vezes se diz «o DNA é complexo», referindo-se ao número de átomos e ligações. Isso é verdade, mas para a questão da origem da vida o decisivo é outra coisa: o DNA é uma sequência ordenada de símbolos (A, C, G, T) que determina o que a célula deve fazer: quais proteínas e RNAs sintetizar, como regular os processos e como transmitir informação à descendência.
A química explica o suporte e as ligações possíveis, mas não substitui a explicação do conteúdo: por que surgiu justamente esta sequência, a que funciona.
Um livro físico é a encadernação, o papel e a tinta: isso é o «suporte». O texto é o que carrega o sentido e prescreve ações.
O DNA se parece não com o papel e a tinta, por mais complexos que sejam quimicamente, mas com o texto de instrução dentro de um livro: o que importa é a ordem dos sinais e o seu significado para quem executa.
Uma longa cadeia de símbolos não precisa ser uma mensagem. Para que uma sequência se torne uma instrução, é preciso um sistema coerente de interpretação: em sentido amplo, uma linguagem.
Não é «uma única peça», mas uma estrutura lógica coordenada: para que os sinais signifiquem ações e resultados, os elementos devem funcionar juntos.
Um processo aleatório pode ser imaginado como o lançamento de um dado: não busca um resultado nem avalia o desfecho. Não tem meta nem noção de erro.
Numa instrução escrita em uma linguagem aparece a ideia de certo/errado em relação às regras de leitura. Uma sequência aleatória de símbolos não «sabe» disso: não é nem linguagem nem executor.
A «correção» existe apenas dentro de um sistema de regras e de um mecanismo de execução. Por isso, explicar o surgimento de uma instrução que funciona apenas pelo acaso é insuficiente.
Todas essas conclusões sobre a linguagem e o propósito apontam para um Criador.
A palavra «ordem» é ampla: tanto o cristal quanto o ruído estão «ordenados» à sua maneira, mas de um modo essencialmente diferente de uma mensagem que é lida e executada.
1) Cristal: regularidade. Um padrão que se repete, mas não um texto longo voltado a uma tarefa.
2) Ruído: imprevisibilidade sem linguagem. Não há um vínculo estável «sinal → significado → ação».
3) Código: uma mensagem aperiódica com função. Não é nem cristal nem ruído, mas uma sequência que, segundo as regras da linguagem, dá um resultado funcional.
O DNA pertence ao terceiro tipo: é uma ordem codificada que a célula lê e executa segundo regras coordenadas.
A química explica as interações intermoleculares e a energética: quais ligações se formam, quais estruturas são estáveis e quais reações são possíveis.
Nos ácidos nucleicos isso inclui a complementaridade (A↔T/U, G↔C): a química explica por que os pares se «reconhecem» e estabilizam a estrutura.
Mas a química responde à pergunta «o que pode se ligar?», não totalmente a «por que surgiu justamente esta ordem funcional?».
A complementaridade ajuda a copiar um modelo já existente, mas por si só não explica a origem do primeiro modelo com sentido.
A química da tinta e do papel não explica por que aparece justamente este parágrafo de instrução. O mesmo ocorre aqui: a química descreve o suporte, não a «autoria do texto».
A questão do DNA é uma questão de informação especificada: há muitíssimas variantes possíveis, e as que funcionam são raras.
Muitas vezes se misturam duas coisas: quantas variantes existem no total e quantas tentativas são realmente possíveis. Se o espaço de variantes é incomparavelmente maior que o número de tentativas, a busca aleatória quase sempre fica vazia.
O espaço de sequências cresce exponencialmente com o comprimento. Os recursos de busca (tempo, número de moléculas, número de ciclos) são finitos.
Por isso, «bilhões de anos» não resolvem o problema por si sós: o que importa é a proporção entre o tamanho do espaço de variantes e o número de tentativas reais.
Analogia: gerar código ao acaso quase nunca produz um programa que compile, execute e realize a função exigida.
Condições mínimas para a seleção:
Sem uma cópia estável, as raras combinações úteis não se conservam: a seleção não tem o que preservar e acumular.
A hereditariedade requer um complexo coordenado: suporte da sequência e maquinaria de leitura/cópia. Sem um executor, o código está «morto»; sem código, não há de onde surgir um executor completo.
A seleção explica a melhoria de sistemas hereditários que já funcionam, mas não substitui a explicação do surgimento do sistema inicial.
Em conjunto, essas conclusões apontam para uma fonte que estabelece a linguagem, o propósito e a escolha válida entre alternativas: uma Mente, um Arquiteto ou um Criador.